sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Sobre vender pedras, rituais de celebração e a Gertrudes

Estou no ócio. Entendam, acabei de passar de ano, que era tudo que eu queria. Mas, com a aproximação das festividades, todo mundo está muito ocupado com presentes, saídas, família. Eu estou ocupada evitando presentes, desejando saídas e ajudando a família. "Ajudando a família". Estou usando todo o meu tempo livre para continuar uma história frustrada, ler Louco Aos Poucos e tentar terminar de assistir Supernatural. A maioria dessas coisas (exceto o livro), eu faço no computador, então minha família sabe onde me achar: no escritório. Sabem, mas nem tentam. Estou momentaneamente assim:

 Viciada como todo bom adolescente.

 Enquanto fico girando na cadeira do escritório (se vocês nunca tentaram, estão perdendo, isso é um ótimo passatempo), eu penso em como esse ano eu caguei pra escola (e passei todo o sufoco que no post anterior vocês acompanharam). Resolvi fazer uma retrospectiva mental e descobri que eu era muito vagabunda. Meu caderno está praticamente vazio, sem anotações bacanas. Minha apostila de Química tem diversos desenhos de sereias, letras de músicas e coisas como "Faltam só 30 minutos, aguenta firme".


 "O que é Química, Senhor?"

Tudo que eu sei é que, quando visualizei 2013 e meus All Stars velhos tocando novamente o solo da escola, tudo em que pensei foi "Que bosta, eu não quero, eu tô cansada". Engraçado que eu tô cansada em véspera de vestibular, que é quando eu mais preciso estar preparada e disposta. Então, não tô. Essa vida de escola não é pra mim.
Decidi o que quero fazer. Venderei pedras.
Vocês já pensaram em quão brilhante seria vender pedras? Pedras com textos presos nelas. Eu poderia montar minha barraca na calçada da praia, com uma canga psicodélica e deixar lá minhas pedrinhas bem polidas e meus textos. Talvez alguém comprasse, por pena. 
Se eu não vender pedras, não sei o que vou fazer. De verdade.

E quanto aos rituais de final de ano? Todo ano eu viajo no Natal-Ano Novo. É o momento perfeito para isso. Quem sai a compra de presentes sou eu. Quem opina sobre as comidas sou eu. Sou convidada para tudo: arrumar, passar, ajeitar, procurar. Beber que é bom, ninguém me convida (Prevejo mudanças esse ano, uma vez que fui consultada sobre qual seria a melhor cerveja para comprar para a festa). 
Ano passado foi bem básico, o ritual de praxe. Comemos com os vizinhos e perto da meia noite, fomos andando até a praia. Em casa tinham coquetéis e, veja bem, eu queria provar os coquetéis, mas sempre que eu chegava na bancada, estava zerado o estoque. Alguém da terceira idade estava entornando todas ali. A única coisa que deu um up na noite foi meu vizinho me presentear com uma garrafa de vinho toda minha. Vinho e cerveja para mim, apenas. Eu sei que quando deu 00h, eu mergulhei pouco na água. Primeiro que, no ano retrasado, algum devoto maníaco jogou de oferenda para Iemanjá uma placenta de baleia.


Quem está comendo, já era. 

Placentas de baleias são coisas extremamente nojentas, com a consistência de mousse e aparência (pelo menos para mim, de noite e já chapada) de uma porção de sacos de Guanabara juntos. Eu realmente achei que eram sacos de Guanabara até alguém gritar "AQUELE CARA JOGOU UMA PLACENTA!". Não satisfeita, o troço passou na minha frente enquanto eu pulava as sete ondas, eu tropecei e pisei bem no meio. 
Não sei o que leva alguém a jogar uma placenta de baleia como oferenda e não sei porque Iemanjá ficaria contente de receber isso. Mais válido jogar o celular, dinheiro, rosas ou espelhos. De qualquer forma, depois de pisar em uma placenta, o mínimo que eu podia esperar de 2011 era que fosse um ano radical e sortudo, no mínimo né.
Mas retomando às razões para eu ter entrado precariamente no mar, primeiro, a placenta, depois, muitos celulares foram afanados na praia e eu estava louca nos sms com um rapaz. 
Terceiro, eu não estava sóbria o suficiente para nadar e acho que nenhum dos meus familiares. Meu maior medo era ser mordida por tubarões de noite. Ou bater com a cabeça em algo de vidro. Ou me afogar em uma placenta de baleia. Tudo era possível. 
Como fiquei apenas parcialmente molhada e pisei, sentei, caí na areia, voltei para casa com esse material da natureza enriquecendo todos os orifícios do meu corpo. Terminei a noite comendo doces e vendo algo imbecil na televisão. Espero que o ritual de celebração desse ano seja diferente, mais radical.

Não sei se vocês tem a mania de dar nomes às coisas aos quais são muito apegados, mas uma das melhores coisas que aconteceu no meu 2012 foi ganhar a Gertrudes. Acho esse nome especial, um nome para pessoas talentosas e de múltiplas funções. Gertrudes, bem como o nome anuncia, é uma impressora extremamente hábil. Ela escaneia, faz xerox, imprime, digitaliza, tem umas tretas de USB direto e está conectada com todos os laptops da casa. Meu carinho por essa belezura só aumenta pelo fato de ela ser grande como um monstro medieval, porém tecnológica. Não me sinto intimidada em falar para minhas visitas (sejam íntimas ou não) que estou esperando a Gertrudes funcionar, enquanto acaricio a tampa de prata e falo com carinho. Não sei porque estou falando da minha impressora aqui. Acho que é o cúmulo do tédio. 
Vou guardar um restinho para amanhã. Boa noite!

Sobre aprovação, errar o nome do santo e sacos de cravo

Eu disse até o dia 22, mas cá estou eu de novo. Esse blog é irresistível às vezes! Além disso, estou em uma adrenalina tão intensa que eu poderia sair correndo de casa nesse exato momento e pular de para-quedas.
Hoje saíram os boletins lá na minha escola, galera. Claro que os boletins de quem ficou de prova final. Como o conceito varia de escola pra escola, foi explicar como é na minha. Você tem suas matérias e sua obrigação é fazer média 7 em tudo no final do ano. Se você for uma incompetente como eu e não conseguir, você faz uma prova final das matérias que você não conseguiu para tentar chegar sua média até 7. Caso você não consiga essa pontuação, acontece a recuperação e se ainda assim não rolar, repete de ano. 
Todo ano eu fico de prova final. Primeiro, não sou tão estudiosa quanto pareço. Segundo, eu durmo nas aulas, selecionando as que eu quero dormir e as que eu posso dormir. Terceiro, existe Matemática. A partir dessa criação do tinhoso, a prova final tem uma vaga só para mim ano após ano. Acontece que minha presença nas finais geralmente roda em torno de três provas no máximo. E a última vez em que eu fiquei em três provas foi na sétima série!
Ano passado eu fiquei em Física e em Matemática (como era de se esperar) precisando de décimos em cada uma. 
Eis que esse ano, algo inusitado acontece. 
Eu fiquei em sete matérias.
Sim.
Sete.
Querendo levar a vida louca, sair todo final de semana, estar em vários lugares, conhecer pessoas e estudar que é bom NADA, eu consegui de prêmio estar em sete provas finais. E em duas delas, precisando de, no mínimo, cinco. Nesse dia, eu olhei no espelho e disse: "Caralho, eu tô muito fodida". 
Foi tipo assim:


 "Eu tô muito fodida!"



Eu rezei pra todos os santos. Fiz uma lista de santos e comecei a rezar, desesperada. Estudei como uma condenada. E não chorei. Só duas vezes... Ninguém é de ferro. Mas não me descabelei.
O meu problema foi com Física. Eu odeio Física. Odeio mais que Matemática. Eu precisava mais em Matemática do que em Física e essa maldita matéria me deixou analmente apertada. Sério, eu estava com muito medo. 
Eu saí da prova de Física desesperada. Eu sabia que a recuperação era certa. Minha mãe disse: "Se você ficar em recuperação, eu vou te bater!" Na mesma hora, eu virei a bunda pra ela e falei: "Então já pode começar".
O pior disso tudo foi que quando minha mãe ficou fazendo pressão psicológica, eu chamei o nome de um dos santos que eu estava rezando tinha UMA SEMANA e minha mãe me olhou assim: "Que que você disse?". Quando eu repeti o nome do santo, ela riu de mim e disse: "O nome não é esse, você inventou isso. Eles não vão te atender!". Eu juro que entrei em desespero. Que espécie de idiota erra o nome do santo? E na hora que mais precisa de um milagre! 
Tentei reparar o erro... 
Basicamente, quando eu soube que o resultado saia hoje, às 9 da manhã, eu dormi como um lixo. Pulei da cama às nove, abri o site da escola e encontro isso aqui!

Não é sonho, eu FUI aprovada em tudo!

Então, eu chorei como uma criança, corri pela casa, avisei a família toda, fui importunar os amigos, o de sempre. Não estava conseguindo acreditar na minha sorte! 
Agora estou oficialmente de férias. Oficialmente livre. Olha que maravilha! 
Mas não, nada está perfeito. Fui pega, presa e obrigada a preencher sachês com cravo, porque "faz as traças ficarem longe dos livros". Devo estar cheirando a cravo até agora. E não saí pra beber, porque minha mãe está inibindo minha comemoração. Ao invés disso, vou fazer social na casa de uma amiga dela.
Olha, só não estou reclamando porque eu tô muito aliviada. Tiraram a bateria das escolas de samba dos meus ombros. Quero só ver ano que vem.
Amanhã deve ter mais, esperem só.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Sobre o Fim do Mundo e a Doença da Vaca Louca

Só estou aqui para comprovar que quanto mais indignada eu fico com o mundo, mais fácil torna-se escrever sobre ele. Não que eu deseje acabar como uma escritora gorda, fumante, enclausurada em casa, com dezenove gatos que quebrou a própria TV a marteladas já que "não suporta o regime capitalista", não, minha indignação não é tão voraz assim. Só estou aproveitando a onda que a raiva libera. Tudo gira em torno de hormônios nessa idade em que me encontro.
Bem, foda-se minha vida pessoal, vamos falar do que importa, vamos falar do Fim do Mundo. Começando com letra maiúscula porque já deixou de ser um hipótese e agora virou um evento no meu Facebook para o qual eu e mais aproximadamente cinco bilhões de desafortunados fomos convidados. A história é manjada: os maias, uma civilização antiga, organizaram bonitinho o nosso calendário e, por algum motivo indeterminado, esse calendário parou no dia 21 de dezembro de 2012 que é amanhã. Algum sensacionalista deu o primeiro grito de "Previsão do Fim do Mundo" e hoje é o dia. 
No noticiário, vamos encontrar os malucos que farão de tudo simplesmente por visualizar esse fim trágico para amanhã. Algumas pessoas realmente querem acreditar que o céu vai escurecer totalmente (o que, ok, não é impossível), raios começarão a aniquilar os passantes, trovões desabarão edifícios, uma cratera abrirá no Centro da Cidade e tudo será engolido por um buraco negro bizarro. Sendo hoje o último dia, rola um desespero por parte dessas pessoas e coisas como essa acontecerão:


Essa foto é melhor que a do grupo que resolveu "facilitar" o trabalho divino praticando suicídio grupal.

Em confronto com esses atos da "Temporada de Suicídio Coletivo Aberta, Inscrevam-se!", está o lado das piadas. O grupo que levantou a seguinte questão: Se hoje fosse seu último dia, o que você faria? São, a primeira vista, céticos, mas ao primeiro clarão no céu, podem incitar o caos. Esse grupo pode resultar em tanta merda quanto o primeiro, porém de formas diferentes e talvez mais pacíficas. É o grupo que responde: eu transaria o dia inteiro; eu diria aquela pessoa que a amo; eu roubaria um banco; eu correria nu; eu pediria perdão pelos meus pecados; eu passaria o dia dormindo. 
Nesse meio termo, eu me posiciono no segundo grupo. Eu absolutamente não acredito no fim do mundo. As chuvas picarosas que rolaram semana passada, com trovões e raios e relâmpagos ameaçando destruir o Rio de Janeiro, bem, sobre elas meu único problema foi meu pavor de raios. De resto, foram apenas água. Nenhum sinal divino, nenhum anjo vindo avisar que o prazo da hipoteca expirou. 
Entretanto, não consigo deixar de pensar. Se hoje fosse meu último dia, o que eu faria? Primeiro, como eu não acredito em primeiro dia, eu fiz a mesma droga que todos os dias. (até agora pelo menos). Eu acordei cedo, porque meu corpo não aguenta ficar além das oito da manhã na cama. Saí com minha irmã e minha função nesse passeio foi óbvia.

Burro de carga

Almocei, dormi, li um livro. Nada excepcional. Acho que meu corpo está muito velho para sair na rua dando para as pessoas, assaltando e dançando o Gangnam Style pela última vez. Se o mundo acabar mesmo amanhã, o que eu acho improvável demais, eu terei vivido meu último dia como um belo último dia. Não vou mandar mensagem de texto dizendo "Eu te amo" pra todos os meus amigos a meia noite. Quem sabe, sabe, quem não sabe, deu. E a gente se encontra do outro lado.
Eu espero, honestamente, que amanhã o mundo entre num vortex temporal e a gente acabe de volta na Idade Média. Já pensaram nisso? 
Amanhã vai fazer sol, eu vou acordar, ver os resultados das minhas provas (graças a Deus eu terei conseguido passar) e eu vou ler. (Que desinteressante) Eu sei. Mas são meus planos. Ler sobre o rapaz que tem a Doença da Vaca Louca. Vocês já ouviram falar nisso?
Estou muito no começo do livro, então fica complicado sumarizar a história para vocês, mas estou cativada por ela. Seguinte: tem esse rapaz, o Cameron, e ele é um desajustado social de marca maior. O incrível é que ele não é um desajustado tipo Bella Swan (Crepúsculo), que quer se interar, tenta se interar. O Cameron é um desajustado na escola e em casa e ele está pouco se fodendo pra isso. Ele não só diz, como expressa e deixa claro. Com dezesseis anos, ele é parabenizado pela sociedade com um belo "Ok,  você tem essa doença muito rara de nome extenso e complicadinho, que vamos tratar pela Doença da Vaca Louca, seja feliz, meus pêsames aí, porque você vai morrer". 
Rapidamente o Cameron entra naquele momento: eu odeio vocês porque vocês vão ficar vivos e eu só queria me afogar em muita maconha para conseguir levar essa droga de notícia.
O pior é que a cada segundo o cérebro dele vai ficando mais e mais deficiente. E uma anja entra na história. Eu sei, é meio louco, mas o livro é sensacional (e gordo, gosto de livros gordos). 


Quem tiver oportunidade ou desejar, confiram esse livro, não vão se arrepender. Vou mostrar dois trechinhos que eu curti bastante.

"Depois de implorar um pouco à minha mãe, ela concorda que eu pegue o Turdmobile, seu carro quadrado com cor de cocô. É feio, mas anda, e, quando estamos atrasados, é melhor que ônibus. Por todo o quarteirão, as gramas ganham vida com homens montados em cortadores de grama dirigíveis. Eles galopam pelos seus jardins, aprumando-os, estão no comando daqueles poucos metros quadrados de terra. Todos saudando o heroi de ação suburbano! Não mexa com esses homens - eles têm cortadores de grama e sabem usá-lo! Tipo, sério, as pessoas esperam que eu tenha boas notas, entre numa boa faculdade, não faça nenhuma besteira, para depois acabar assim também algum dia? Valeu, eu passo."


"Quer saber o que funciona? Negação. Como método para lidar com as dificuldades a negação é gravemente subestimada. Ei, talvez tenha sido um engano e eu só esteja com uma gripe irada. Médicos cometem erros o tempo todo. Psicólogos, então... Brincadeira. 
Durante muito tempo achei que seria legal morrer jovem. Sério, as coisas não estavam indo tão bem no departamento Vida. A morte me parecia infinitamente mais glamourosa e, sabe como é... meio difícil de errar a mão. Confesso que grande parte da fantasia tinha a ver com ficar observando todas aquelas garotas que algum dia me desprezaram se atirando no meu caixão, chorando a minha morte precoce e confessando que sempre me desejaram e lamentando não terem tido uma oportunidade de reivindicar minha virgindade quando eu estava vivo. 
O problema é que eu não estarei na área para desfrutar disso tudo. Estarei me transformando numa cabeça esponjosa. É nesse tipo de coisa que eu fico pensando com os poucos neurônios que me restam. Claro que meus pais se convenceram de que o diagnóstico está errado. E eu quero acreditar neles. Assim como quero acreditar que no fundo Staci Johnson me deseja e me hostiliza constantemente apenas para disfarçar seus impulsos libidinosos.
Como eu disse, negação. Agora atendemos 24 horas, 7 dias por semana."

Vou tentar terminar esse livro antes que a cratera se abra no Centro da Cidade. O Inferno para mim, certamente seria baseado em livros custando cem reais cada um, então espero que se eu for pra lá, me deixem levar minha coleção de vida. Até dia 22, galera.