domingo, 27 de janeiro de 2013

Buraco

Eu estou preparado.
Acordo com a sensação de "É, é isso, cara". As cortinas estão cerradas, o aposento é escuridão, penumbra. É a Guerra. Eu sei que é a Guerra. Estou travando-a, estou bem no meio do combate e preciso entender que toda essa escuridão... é um efeito colateral da Guerra.
Sei que estou sussurrando isso repetidamente. Não posso esquecer de levantar e lutar, pois é hoje.
É hoje, é hoje, é hoje.
Pareço um rapazinho feliz na noite de Natal. Escapei da cama e vou abrir meus presentes mais cedo, vai ser uma bela surpresa familiar todo o papel rasgado pelo chão.
Não posso pensar em Natal agora. Isso é uma Guerra. Memórias que não tive, mas, nossa!, como quero ter vêm e vão. Pego o rifle. Pego outro rifle. E mais outro. Pego todos e coloco sobre a cama. Eles são pesados, afundam no colchão macio e eu os encaro.
São promessas de salvação, além de armas de combate. Nem todo tiro é dado com rancor e ódio.
Não, hoje eu não vou matar, eu vou salvar.
Do meu quarto posso ouvir a voz daquela vagabunda no andar de baixo e trinco os dentes.
"- Oh, querido, que lindo chapéu! Deixe-me arrumar sua gravata!"
Ela deve estar sorrindo, aposto que está. Fingindo que está feliz com esse homem enquanto desempenha seu belo papel de vagabunda. Isso me distrai tanto, todo esse ódio sufocando, sufocando sufocando. Não posso perder o foco agora. Olho para as armas e é isso.
Ela precisa sair da minha cabeça, mamãe precisa sair. Pego o pó branco, a única coisa que pode tirá-la da minha cabeça agora.
- Querido! Vai se atrasar para a escola!
Não escuto mais nada enquanto cheiro. Sento na cadeira e apoio os pés no móvel, relaxando. Relaxando, relaxando, mas sem perder o foco. Hoje sou um Salvador e preciso cumprir a minha tarefa. Todos os dias, todas as pessoas lidam com suas vidas de merda culpando o mundo, o destino pelos frutos ruins que colhem. São tão mesquinhos. O único culpado são as próprias pessoas. Vou salvá-las de travar essa Guerra com o mundo.
Um rifle descansa no meu colo e eu o acaricio, tão gelado e tão potente. Esse é meu favorito, precisa ser o primeiro a ser usado. Os anjos salvadores sempre usavam suas melhores espadas, vejam Miguel. Miguel tinha sua própria espada de morte, banhada em sangue de todas as almas que ele salvou. Um anjo admirável.
Era muito dificil manejar uma espada e eu não tenho tempo. Preciso ser rápido, antes que o outro time intervenha na minha missão.
Uma mochila velha serve para guardar tudo. Desço as escadas degrau por degrau como um Rei. É o preço de todas as batalhas: não saber se você vai estar de volta ao lar.
Ela está no pé da escada e me olha, com um sorriso falso. Ela é toda falsa, toda. Completamente desprezível.
- Assim você vai se atrasar para a escola, querido. Tem café na mesa.
- Estou sem fome.
- Nem um pedaço de pão?
- Não, obrigada.
Ela me encara e por um segundo, acho que ela sabe. Sabe que vou salvar todas as pessoas e talvez ela seja a inimiga tentando me impedir. Preciso sair daqui.
- Tá, tchau.
- Tenha um bom dia de aula!
- É.
Já estou na calçada e preciso caminhar com calma. Tento conter essa ansiedade dentro do meu peito, meu coração que bate tão furioso de prazer. Por enquanto, permito-me celebrar o que virá. É épico. Transcendental. A Guerra me tornou tão forte e tão estimulado, tão bravo. O casaco folgado é esfarrapado e imundo, tão imundo... Mas falta pouco.
Lá está, a escola. Todos andam em várias direções e falam em tons de voz altos e baixos tentando ocupar mais uma droga de dia em suas vidas. Eu passo despercebido por eles, eu sei passar despercebido.
Imagino coisas.
"- Sua mochila. Abra sua mochila.
- A minha mochila, diretora?
- Agora, rapaz.
POU!"
Rio baixinho para não chamar a atenção do inimigo. A diretora estaria hilária deitada no chão pintada de vermelho. Tudo por ter sido autoritária demais e ter exigido revistar minhas coisas, mas tudo bem, porque ela estaria descansando e não travaria mais uma briga pela sobrevivência.
Eu sou um heroi.
Eu sou o Destinado.
Eu vou salvar todas essas almas errantes.
Uma garota esbarra em mim e seus olhos se demoram no meu rosto.
Ela não pode olhar através da máscara, do esqueleto, do Anjo da Morte. Ela não tem a menor noção de como sua alma é suja e gritante e como está acorrentada a mesmice e ao vômito em que ela é presa. Todos os dias, levantar e ouvir os pais e tentar ser normal e fracassar. Anormal, desgraçada, miserável.
Vamos todos acabar em um imenso buraco de horror e sangue, presos aos nossos erros, sem perdão ou misericórdia. Ele, Ele não liga para nós, nunca ligou, não liga para mim. Poderia ter impedido tudo isso, poderia ter impedido os rifles pesados nas minhas costas, mas não impediu. Ou Ele não se importa ou é o que ele deseja, que eu faça isso, minha missão. Sou um Anjo da Morte em serviço.
Estou no centro do palco, prestes a dar minha fala principal. Pisco diversas vezes por conta das luzes fortes.
Abro o zíper da mochila bem lentamente, o corredor está deserto. É como dar um pause no mundo, enquanto eu preparo meu show. Minha favorita. É você.
Play.
Agora eu sou o heroi dessa história.
Viro em outro corredor.
- Meu Deus, ai meu Deus, O QUE É ISSO?
- ELE TÁ ARMADO!
Tudo bem, está tudo bem.
Acalmem-se. 
Aponto. Miro. POU.
Eles gritam e correm, se espalham pela escola. Não pensei que fosse ser diferente, no final. A tarefa do Anjo da Morte é perseguir, espalhar a mensagem. É, é isso.
Mais gritos. Alguns choram. Outros imploram. Os mais corajosos tentam avisar.
- ELE ESTÁ ARMADO! CORRAM, FUJAM!
Mas é o que eu faço, não, é o que eu preciso fazer.
Passar a mensagem.
É isso.