quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Sobre o Fim do Mundo e a Doença da Vaca Louca

Só estou aqui para comprovar que quanto mais indignada eu fico com o mundo, mais fácil torna-se escrever sobre ele. Não que eu deseje acabar como uma escritora gorda, fumante, enclausurada em casa, com dezenove gatos que quebrou a própria TV a marteladas já que "não suporta o regime capitalista", não, minha indignação não é tão voraz assim. Só estou aproveitando a onda que a raiva libera. Tudo gira em torno de hormônios nessa idade em que me encontro.
Bem, foda-se minha vida pessoal, vamos falar do que importa, vamos falar do Fim do Mundo. Começando com letra maiúscula porque já deixou de ser um hipótese e agora virou um evento no meu Facebook para o qual eu e mais aproximadamente cinco bilhões de desafortunados fomos convidados. A história é manjada: os maias, uma civilização antiga, organizaram bonitinho o nosso calendário e, por algum motivo indeterminado, esse calendário parou no dia 21 de dezembro de 2012 que é amanhã. Algum sensacionalista deu o primeiro grito de "Previsão do Fim do Mundo" e hoje é o dia. 
No noticiário, vamos encontrar os malucos que farão de tudo simplesmente por visualizar esse fim trágico para amanhã. Algumas pessoas realmente querem acreditar que o céu vai escurecer totalmente (o que, ok, não é impossível), raios começarão a aniquilar os passantes, trovões desabarão edifícios, uma cratera abrirá no Centro da Cidade e tudo será engolido por um buraco negro bizarro. Sendo hoje o último dia, rola um desespero por parte dessas pessoas e coisas como essa acontecerão:


Essa foto é melhor que a do grupo que resolveu "facilitar" o trabalho divino praticando suicídio grupal.

Em confronto com esses atos da "Temporada de Suicídio Coletivo Aberta, Inscrevam-se!", está o lado das piadas. O grupo que levantou a seguinte questão: Se hoje fosse seu último dia, o que você faria? São, a primeira vista, céticos, mas ao primeiro clarão no céu, podem incitar o caos. Esse grupo pode resultar em tanta merda quanto o primeiro, porém de formas diferentes e talvez mais pacíficas. É o grupo que responde: eu transaria o dia inteiro; eu diria aquela pessoa que a amo; eu roubaria um banco; eu correria nu; eu pediria perdão pelos meus pecados; eu passaria o dia dormindo. 
Nesse meio termo, eu me posiciono no segundo grupo. Eu absolutamente não acredito no fim do mundo. As chuvas picarosas que rolaram semana passada, com trovões e raios e relâmpagos ameaçando destruir o Rio de Janeiro, bem, sobre elas meu único problema foi meu pavor de raios. De resto, foram apenas água. Nenhum sinal divino, nenhum anjo vindo avisar que o prazo da hipoteca expirou. 
Entretanto, não consigo deixar de pensar. Se hoje fosse meu último dia, o que eu faria? Primeiro, como eu não acredito em primeiro dia, eu fiz a mesma droga que todos os dias. (até agora pelo menos). Eu acordei cedo, porque meu corpo não aguenta ficar além das oito da manhã na cama. Saí com minha irmã e minha função nesse passeio foi óbvia.

Burro de carga

Almocei, dormi, li um livro. Nada excepcional. Acho que meu corpo está muito velho para sair na rua dando para as pessoas, assaltando e dançando o Gangnam Style pela última vez. Se o mundo acabar mesmo amanhã, o que eu acho improvável demais, eu terei vivido meu último dia como um belo último dia. Não vou mandar mensagem de texto dizendo "Eu te amo" pra todos os meus amigos a meia noite. Quem sabe, sabe, quem não sabe, deu. E a gente se encontra do outro lado.
Eu espero, honestamente, que amanhã o mundo entre num vortex temporal e a gente acabe de volta na Idade Média. Já pensaram nisso? 
Amanhã vai fazer sol, eu vou acordar, ver os resultados das minhas provas (graças a Deus eu terei conseguido passar) e eu vou ler. (Que desinteressante) Eu sei. Mas são meus planos. Ler sobre o rapaz que tem a Doença da Vaca Louca. Vocês já ouviram falar nisso?
Estou muito no começo do livro, então fica complicado sumarizar a história para vocês, mas estou cativada por ela. Seguinte: tem esse rapaz, o Cameron, e ele é um desajustado social de marca maior. O incrível é que ele não é um desajustado tipo Bella Swan (Crepúsculo), que quer se interar, tenta se interar. O Cameron é um desajustado na escola e em casa e ele está pouco se fodendo pra isso. Ele não só diz, como expressa e deixa claro. Com dezesseis anos, ele é parabenizado pela sociedade com um belo "Ok,  você tem essa doença muito rara de nome extenso e complicadinho, que vamos tratar pela Doença da Vaca Louca, seja feliz, meus pêsames aí, porque você vai morrer". 
Rapidamente o Cameron entra naquele momento: eu odeio vocês porque vocês vão ficar vivos e eu só queria me afogar em muita maconha para conseguir levar essa droga de notícia.
O pior é que a cada segundo o cérebro dele vai ficando mais e mais deficiente. E uma anja entra na história. Eu sei, é meio louco, mas o livro é sensacional (e gordo, gosto de livros gordos). 


Quem tiver oportunidade ou desejar, confiram esse livro, não vão se arrepender. Vou mostrar dois trechinhos que eu curti bastante.

"Depois de implorar um pouco à minha mãe, ela concorda que eu pegue o Turdmobile, seu carro quadrado com cor de cocô. É feio, mas anda, e, quando estamos atrasados, é melhor que ônibus. Por todo o quarteirão, as gramas ganham vida com homens montados em cortadores de grama dirigíveis. Eles galopam pelos seus jardins, aprumando-os, estão no comando daqueles poucos metros quadrados de terra. Todos saudando o heroi de ação suburbano! Não mexa com esses homens - eles têm cortadores de grama e sabem usá-lo! Tipo, sério, as pessoas esperam que eu tenha boas notas, entre numa boa faculdade, não faça nenhuma besteira, para depois acabar assim também algum dia? Valeu, eu passo."


"Quer saber o que funciona? Negação. Como método para lidar com as dificuldades a negação é gravemente subestimada. Ei, talvez tenha sido um engano e eu só esteja com uma gripe irada. Médicos cometem erros o tempo todo. Psicólogos, então... Brincadeira. 
Durante muito tempo achei que seria legal morrer jovem. Sério, as coisas não estavam indo tão bem no departamento Vida. A morte me parecia infinitamente mais glamourosa e, sabe como é... meio difícil de errar a mão. Confesso que grande parte da fantasia tinha a ver com ficar observando todas aquelas garotas que algum dia me desprezaram se atirando no meu caixão, chorando a minha morte precoce e confessando que sempre me desejaram e lamentando não terem tido uma oportunidade de reivindicar minha virgindade quando eu estava vivo. 
O problema é que eu não estarei na área para desfrutar disso tudo. Estarei me transformando numa cabeça esponjosa. É nesse tipo de coisa que eu fico pensando com os poucos neurônios que me restam. Claro que meus pais se convenceram de que o diagnóstico está errado. E eu quero acreditar neles. Assim como quero acreditar que no fundo Staci Johnson me deseja e me hostiliza constantemente apenas para disfarçar seus impulsos libidinosos.
Como eu disse, negação. Agora atendemos 24 horas, 7 dias por semana."

Vou tentar terminar esse livro antes que a cratera se abra no Centro da Cidade. O Inferno para mim, certamente seria baseado em livros custando cem reais cada um, então espero que se eu for pra lá, me deixem levar minha coleção de vida. Até dia 22, galera. 


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